Introdução
Jerusalém, ano 66 da Era Comum. As ruas da Cidade Santa fervilham com a fumaça da
revolta. Os exércitos de Roma recuam inesperadamente, e o povo comemora o que parece ser uma vitória divina. Mas, no meio do júbilo geral, um grupo de judeus fiéis não celebra. Em vez disso, eles empacotam seus pertences, deixam suas casas e atravessam o rio Jordão rumo a uma cidade estrangeira chamada Pella.Quem eram esses homens e
mulheres? Eles eram os Netzarim, os discípulos originais de Yeshua. E a
decisão de partir no momento de maior ilusão de vitória foi o que salvou suas
vidas da catástrofe que se consumaria no ano 70 EC.
Sejam bem-vindos a este Shiur.
Hoje vamos desvendar os bastidores históricos e o fundamento bíblico dessa fuga
profética, conectando a profecia de Mateus 24 com os registros de Flávio
Josefo, a teologia de expiação da Torá e a triste repetição do cenário dos dias
de Jeremias. Vamos juntos ao estudo!
I. O Contexto Histórico: O Caldeirão da Judéia (c. 66–70 EC)
Estamos em meados do primeiro
século da Era Comum. A Judéia não é um lugar pacífico. A tensão entre os
ocupantes romanos e a população judaica atingiu o ponto de ruptura por conta de
impostos abusivos, insensibilidade religiosa por parte dos procuradores romanos
e o surgimento de grupos zelotes militantes.
No ano 66 EC, a Grande Revolta
Judaica estourou. Os rebeldes obtiveram vitórias surpreendentes, expulsando os
romanos de Jerusalém. No entanto, Roma respondeu enviando o Legado da Síria,
Céstio Galo, e mais tarde os generais Vespasiano e Tito para esmagar a
rebelião.
O historiador judaico-romano Flávio
Josefo (c. 37–100 EC) registra em sua obra A Guerra dos Judeus o
momento exato em que Céstio Galo cercou o Templo e, inexplicavelmente para os
táticos da época, retirou suas tropas:
"Céstio [...] retirou
repentinamente suas tropas e, abandonando todas as esperanças de tomar a
cidade, sem ter sofrido nenhuma derrota e sem razão aparente no mundo, levantou
o cerco."
— Flávio Josefo, A
Guerra dos Judeus, Livro II, Cap. 19
Josefo, escrevendo sob uma
perspectiva providencial, comenta que D-us permitiu essa retirada inusitada
para que a tragédia final de Jerusalém se consumasse mais tarde. Para os
zelotes, a retirada foi vista como um milagre divino a favor da revolta. Mas para
os Netzarim, essa foi a janela de oportunidade exata profetizada
por Yeshua para abandonar a cidade.
II. Os Netzarim e os Registros
dos Historiadores da Igreja
Os seguidores de Yeshua em
Jerusalém não eram "cristãos" gentílicos, mas judeus observantes da
Torá conhecidos como Netzarim (Nazarenos). A decisão deles de abandonar
a cidade diante do cerco de Céstio Galo e migrar para Pella foi registrada por
historiadores posteriores da Igreja Antiga:
1. Eusébio de Cesareia (c.
260–339 EC)
Em sua História
Eclesiástica, Eusébio documenta a revelação divina e a ordem direta que
guiou a comunidade messiânica:
"O povo da Igreja de
Jerusalém foi ordenado por uma revelação, concedida a homens de aprovada
virtude antes da guerra, para que saíssem da cidade e habitassem numa cidade da
Pereia chamada Pella. E quando aqueles que criam em Cristo para lá migraram de
Jerusalém, a santidade dos apóstolos e de toda a igreja abandonou completamente
a metrópole real dos judeus e toda a terra da Judéia..."
— Eusébio de Cesareia, História
Eclesiástica, Livro III, Cap. 5
2. Epifânio de Salamina (c.
315–403 EC)
Epifânio reforça esse evento
ao descrever a seita dos Nazarenos na sua obra Panarion:
"Esta seita dos Nazarenos
encontra-se em Beroea, perto da Celesíria, na Decápolis perto da região de
Pella [...] Pois quando todos os discípulos habitaram em Pella depois de sua
partida de Jerusalém, tendo Cristo lhes dito para abandonar Jerusalém e
retirar-se dela por causa do cerco iminente..."
— Epifânio de Salamina,
Panarion, 29, 7
III. A Advertência de Yeshua:
A Abominação da Desolação
O entendimento dos Netzarim
estava ancorado na linguagem profética registrada em Mateus 24:15–16 e Lucas
21:20–21:
- A linguagem apocalíptica (Mateus
24:15-16): "Portanto, quando virdes a
'abominação da desolação', de que falou o profeta Daniel, no Lugar
Santo... fujam para os montes."
- A aplicação prática (Lucas 21:20-21): "Mas,
quando virdes Jerusalém cercada de exércitos, sabei então que é chegada a
sua desolação. Então, os que estiverem na Judéia, fujam para os
montes..."
Quando o exército romano
(carregando seus estandartes pagãos com a águia imperial, considerados uma
profanação ou "abominação" pelos judeus) cercou as imediações do
Templo e depois se retirou temporariamente, os Netzarim compreenderam o sinal. Eles
não lutaram ao lado dos zelotes nem confiaram na estrutura militar do Templo.
Obedeceram e fugiram para Pella (na Transjordânia), salvando suas vidas.
IV. Fatos Históricos que
Credenciam Yeshua como Profeta do Primeiro Século
Na tradição profética de
Israel (conforme Deuteronômio 18:21–22), um verdadeiro profeta é autenticado
quando suas predições específicas se cumprem na história. O cumprimento literal
dos oráculos de Yeshua sobre Jerusalém e o Templo fornece uma sólida base
histórica para o seu papel profético:
|
Profecia de Yeshua |
Cumprimento
Histórico Registrado por Flávio Josefo |
|
"Não ficará pedra sobre
pedra"
(Mt 24:2; Lc 19:44) |
Destruição Total do Templo
(70 EC): Josefo relata que as legiões de Tito incendiaram o
Templo. O ouro derretido correu pelas frestas das pedras, fazendo com que os
soldados romanos desmontassem o fundamento pedra por pedra para extraí-lo (A
Guerra dos Judeus, Livro VII, Cap. 1). |
|
"Cercada de trincheiras/paliçadas"
(Lucas 19:43) |
O Cerco de Cirvalação de
Tito: Josefo registra que Tito construiu uma
muralha/trincheira (murus) ao redor de toda a cidade de Jerusalém em
apenas três dias para impedir a fuga de suprimentos ou pessoas (A Guerra
dos Judeus, Livro V, Cap. 12). |
|
Massacre e Fome Extrema
(Lucas 21:24; Mateus 24:21) |
A Tragédia de 70 EC:
Josefo estima em 1,1 milhão o número de mortos durante o cerco final
devido à fome atroz, guerras civis entre facções dentro da cidade e a espada
romana (A Guerra dos Judeus, Livro VI, Cap. 9). |
|
"Levados cativos para
todas as nações"
(Lucas 21:24) |
Escravidão em Massa:
Cerca de 97.000 judeus foram levados cativos por Tito, enviados para
as minas do Egito, vendidos nos mercados de escravos do Império Romano ou
mortos nas arenas (A Guerra dos Judeus, Livro VI, Cap. 9). |
V. Conclusão: O Significado
Histórico e Teológico
A fuga para Pella e o
cumprimento minucioso das profecias sobre 70 EC moldaram o destino do Oriente
Médio no primeiro século, estabelecendo um divisor de águas definitivo tanto
para a história judaica quanto para a fé messiânica.
1. A Expiação Histórica (Kapará)
e a Preservação do Remanescente
Longe de ser uma mera manobra
tática de fuga, a salvação da comunidade dos Netzarim encontra respaldo
no próprio padrão estrutural da Torá. Assim como Arão correu com o incensário
para o meio da congregação (Nm 16) e Finéias agiu com zelo profético (Nm
25) — atos que a Torá define explicitamente como expiações (Kaparot)
que estancaram pragas e garantiram a sobrevivência física de um remanescente —,
o ensinamento e a intercessão de Yeshua atuaram como um escudo de preservação
para aquela geração.
A expiação do Mashiach não
operou apenas no plano espiritual e eterno; ela teve uma manifestação
concreta na história. Para os discípulos que acolheram a advertência do
Mashiach, a obediência ao sinal profético desviou a "praga" do juízo
romano que assolou a Judéia, preservando a vida daquela geração de crentes na
cidade de Pella.
2. O Paralelo Histórico: O
Alerta de Jeremias vs. O Alerta de Yeshua
A tragédia daqueles que
permaneceram em Jerusalém em 70 EC espelha de forma impressionante um dos
capítulos mais dolorosos do Tanach: o cerco babilônico de 586 a.E.C.
- O precedente com Yirmeyahu (Jeremias):
No século VI a.E.C., o profeta Jeremias advertiu exaustivamente que a
confiança cega na estrutura física do Templo não salvaria a cidade e que a
resistência militar contra o Império Babilônico era contra a vontade
divina (cf. Jeremias 7:4; 21:8-9). Lideranças religiosas e facções
zelosas da época acusaram Jeremias de traição, rejeitaram sua mensagem
profética e insistiram em lutar. O resultado foi a destruição do Primeiro
Templo e o exílio em Babilônia.
- O cumprimento no Século I:
Do mesmo modo, no século I E.C., as facções zelotes e os líderes de
Jerusalém ignoraram os oráculos de Yeshua, confiando que o D-us de Israel
interviria milagrosamente para defender as muralhas do Segundo Templo.
Aqueles que fecharam os ouvidos à voz do profeta de sua geração sofreram o
mesmo destino descrito por Jeremias: cercados pela fome, devastados pela
espada e, os sobreviventes, levados cativos para as nações.
3. Divergência Histórica:
Pella e Yavne
Diante do colapso do sistema
sacrificial e da destruição do Templo em 70 EC, dois caminhos distintos se
consolidaram na reconstrução da identidade espiritual de Israel:
- Em Yavne:
Sob a liderança de Rabi Yochanan ben Zakkai, os sábios estruturaram
o Judaísmo Rabínico, redefinindo a expiação diária através do
estudo da Torá, da oração (Tefilá) e de atos de bondade (Gmilut
Chasadim), adaptando a fé à ausência do Templo.
- Em Pella:
A comunidade dos Netzarim preservou a tradição dos primeiros
seguidores de Yeshua, mantendo que a expiação final e a preservação do
remanescente haviam sido providas pelo Mashiach — cumprindo o papel do
Servo de Isaías 53 e garantindo a continuidade histórica da testemunha
messiânica de Jerusalém.
A fuga para Pella permanece,
portanto, como um testemunho supremo de que discernir a voz profética no
momento da crise não é apenas um exercício teológico, mas uma questão de vida,
preservação e fidelidade ao Criador.
Por: Familia Bnei Avraham.
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