Yeshua
não ensinava fora do mundo da Torá. Ele viveu como judeu na terra de Israel,
frequentou sinagogas, discutiu a Torá, citou Moisés e os Profetas e participou
das festas judaicas. Portanto, para compreender suas palavras, precisamos
primeiro enxergá-lo dentro daquele contexto histórico.
Yeshua e Ki Tetsê A Parashá Ki Tetsê possui um grande eixo:
Como um povo que pertence a ADONAI deve tratar o próximo, exercer autoridade, lidar com dinheiro, casamento, trabalho, justiça, sexualidade e os vulneráveis.
E isso
aparece fortemente nos ensinamentos de Yeshua.
1. O
casamento e o divórcio. Ki Tetsê — Deuteronômio 24:1–4
Essa é
provavelmente a ligação mais direta entre Yeshua e Ki Tetsê.
Deuteronômio
24 não apresenta o divórcio como mandamento. Moisés regulamenta uma situação
que já existia:
"Quando
um homem tomar uma mulher e se casar com ela..."
Yeshua
foi questionado precisamente sobre esse assunto.
Em Mateus
19:3–9, alguns fariseus perguntam:
"É
lícito ao homem repudiar sua mulher por qualquer motivo?"
E
Yeshua responde levando a discussão para Gênesis, antes de chegar à
legislação de Deuteronômio. Ele diz, em essência:
"Moisés
permitiu por causa da dureza do vosso coração; mas no princípio não foi
assim."
Isso é
muito importante. Yeshua não está dizendo que Moisés deu uma lei errada.
Ele reconhece que Moisés permitiu/regulamentou o divórcio, mas mostra que
existe uma intenção mais profunda da criação.
O que
estava acontecendo no primeiro século?
No
judaísmo do período existiam debates sobre Deuteronômio 24:1,
especialmente sobre a expressão "alguma coisa indecente".
A
discussão rabínica posterior associada às escolas de Shammai e Hillel
mostra que havia diferentes entendimentos sobre os motivos que poderiam
justificar o divórcio. Yeshua entra nesse debate e desloca o foco: Não pergunta
apenas:
"Qual
é a situação em que posso me divorciar?" Ele pergunta: "Qual era a
intenção de ADONAI desde a criação?"
Isso
combina perfeitamente com a maneira como Yeshua frequentemente ensinava.
2.
Yeshua e a proteção do vulnerável. Ki Tetsê possui enorme
preocupação com:
- estrangeiro;
- órfão;
- viúva;
- trabalhador;
- pobre;
- pessoa vulnerável.
Isso
aparece constantemente nos ensinamentos de Yeshua.
Em Mateus
25:31–46, Yeshua coloca diante do discípulo a responsabilidade de alimentar
o faminto, dar água ao sedento, receber o estrangeiro e visitar o necessitado. Isso
não surge do nada. É perfeitamente coerente com o mundo moral da Torá.
Em Ki
Tetsê, por exemplo: "Não perverterás o direito do estrangeiro
e do órfão, nem tomarás em penhor a roupa da viúva."
Yeshua
leva esse princípio para o coração:
A nossa
relação com ADONAI é demonstrada na maneira como tratamos pessoas vulneráveis.
3.
"Não desviarás o olhar"
Existe
uma instrução muito interessante em Ki Tetsê: "Não te desviarás..."
Quando
alguém encontra o animal perdido do irmão, não pode simplesmente fingir que não
viu.
Esse
princípio aparece várias vezes na Torá.
E
observe como Yeshua constrói a parábola do bom samaritano, em Lucas 10.
Um
homem está ferido. Algumas pessoas religiosas passam. Mas um samaritano para. Ele
vê o homem e não passa de largo.
Isso é
muito semelhante ao princípio moral de Ki Tetsê: Não finja que não viu.
A
santidade não consiste apenas em não fazer mal. Consiste também em agir
quando o mal está diante de nós.
4. O
trabalhador e seu salário
Ki
Tetsê diz: "No seu dia lhe darás o seu salário."
Isso
era extremamente importante numa sociedade agrícola e artesanal.
Um
trabalhador podia depender daquele pagamento para comer naquele mesmo dia. Yeshua
utiliza um princípio semelhante quando ensina:
"Digno
é o trabalhador do seu salário." — Lucas 10:7 Essa frase é muito
interessante porque mostra como o pensamento de Yeshua está profundamente
conectado à tradição bíblica. O trabalhador não é apenas uma ferramenta de
produção. Ele possui dignidade.
5. O
boi que debulha
Deuteronômio
25:4 diz: "Não atarás a boca ao boi quando debulhar."
Paulo
cita exatamente esse texto em 1 Coríntios 9:9, mostrando que o princípio
de que aquele que trabalha participa do fruto do trabalho era reconhecido
dentro do movimento dos discípulos de Yeshua. Mas o princípio também aparece no
ensino de Yeshua:
"O
trabalhador é digno do seu salário."
Portanto,
há uma linha de pensamento: Torá → judaísmo do primeiro século →
ensinamentos de Yeshua → ensinamentos dos seus discípulos.
6.
Yeshua e o juramento
Ki
Tetsê diz que quando alguém fizer um voto a ADONAI:
"Não
tardarás em cumpri-lo."
Yeshua
trata profundamente da questão dos juramentos em Mateus 5:33–37.
Ele
diz: "Seja, porém, a vossa palavra: Sim, sim; não, não."
O que
Yeshua está fazendo?
Ele
não está simplesmente ensinando: "Nunca faça juramento."
Ele
está atacando uma cultura em que a pessoa poderia tentar manipular a verdade
através de fórmulas religiosas.
A
pessoa poderia pensar: "Eu não jurei diretamente por ADONAI, então posso
dizer isso." Yeshua vai à raiz: Se sua palavra é verdadeira, você não
precisa criar mecanismos religiosos para parecer confiável.
Isso
está muito próximo da preocupação de Ki Tetsê com a fidelidade da palavra.
7.
Pesos e medidas honestos
No
final da parashá temos: "Não terás na tua bolsa pesos diversos, grandes e
pequenos." E: "Peso inteiro e justo terás."
Isso
combate uma prática comum no mundo antigo: usar uma medida para comprar e
outra para vender.
Ou
seja: "Quando eu compro de você, quero que pese muito." "Quando
você compra de mim, quero que pese pouco." É fraude.
Yeshua
constantemente confronta a hipocrisia religiosa e a exploração econômica.
Um dos
exemplos mais fortes está na purificação do templo.
Em
Marcos 11:15–17, Yeshua entra no templo e confronta aqueles que estavam
transformando aquele espaço em lugar de comércio e exploração. Ele cita Isaías:
"Minha
casa será chamada casa de oração para todas as nações."
A
questão não é simplesmente comércio. É: religião + dinheiro + exploração +
corrupção. Yeshua não aceita que o nome de ADONAI seja utilizado para
legitimar injustiça.
8. O
parapeito no telhado e a responsabilidade
Ki
Tetsê ordena: "Quando edificares uma casa nova, farás um parapeito no teu
terraço." Por quê?
Porque
o proprietário precisa impedir que alguém caia. É uma lei de prevenção da
responsabilidade.
Não
basta dizer: "Eu não empurrei ninguém."
Se
você construiu um lugar perigoso e não tomou providências, também possui
responsabilidade.
Esse
princípio ajuda a compreender um aspecto importante dos ensinamentos de Yeshua:
o pecado não é somente aquilo que fazemos; às vezes também está naquilo que
deixamos de fazer. Isso aparece claramente na parábola do bom samaritano. O
sacerdote e o levita não necessariamente feriram aquele homem. Mas não
fizeram o que poderiam fazer.
9. A
dignidade até daquele que foi condenado
Ki
Tetsê determina que o corpo de alguém pendurado no madeiro não deveria
permanecer ali durante a noite.
Isso é
extraordinário dentro do mundo antigo.
Mesmo
alguém condenado precisava receber tratamento digno depois da morte.
Agora
observe algo muito importante em relação a Yeshua.
Yeshua
foi executado e colocado no madeiro.
E os
Evangelhos fazem questão de mencionar que seu corpo foi retirado antes do
anoitecer. João 19:31 registra justamente a preocupação com o fato de que era
preparação para o Shabat.
Isso
mostra que a execução de Yeshua aconteceu dentro de um contexto judaico em que Deuteronômio
21:22–23 continuava sendo uma realidade importante. O texto de Deuteronômio
dizia:" O seu cadáver não permanecerá no madeiro durante a noite."
Então
o sepultamento de Yeshua antes do Shabat não é um detalhe insignificante. Ele
pertence ao contexto da Torá.
10.
"Maldito todo aquele que for pendurado no madeiro"
Aqui
encontramos uma ligação ainda mais profunda. Deuteronômio 21:23 diz:
"Porquanto
o pendurado é maldito de Deus."
Paulo
utiliza esse texto em Gálatas 3:13 para interpretar a morte de Yeshua.
Isso
mostra que os primeiros seguidores de Yeshua compreenderam sua execução à
luz da Torá.
Yeshua
morreu através de uma forma de execução que, para os judeus, carregava uma
forte associação com a maldição de alguém pendurado no madeiro.
Paulo
pergunta, portanto, como interpretar teologicamente esse acontecimento.
Isso
não significa que Yeshua fosse moralmente um transgressor da Torá.
A
questão é outra: aquele que é justo foi colocado na posição daquele que
recebeu a maldição.
Essa é
uma das principais interpretações que o movimento messiânico primitivo
desenvolveu a partir de Deuteronômio.
11.
Yeshua e a mulher vulnerável
Ki
Tetsê possui várias leis relacionadas à proteção da mulher dentro de uma
sociedade patriarcal.
No
primeiro século, entretanto, uma mulher podia encontrar-se em uma posição
social muito vulnerável.
Veja
como Yeshua frequentemente trata mulheres:
- conversa publicamente com a mulher
samaritana;
- recebe mulheres entre seus discípulos;
- permite que mulheres se aproximem;
- protege uma mulher acusada;
- ensina mulheres;
- trata mulheres como pessoas moralmente
responsáveis diante de ADONAI.
Isso
não significa que Yeshua tenha simplesmente abolido todas as estruturas sociais
do primeiro século.
Significa
que ele constantemente tratava pessoas marginalizadas com dignidade e
responsabilidade moral.
12. A
questão da sexualidade
Ki
Tetsê possui muitas instruções sobre sexualidade, adultério, casamento e
fidelidade.
Yeshua
também fala muito sobre sexualidade. Mas ele faz algo característico:
leva o
mandamento para o interior da pessoa.
Em
Mateus 5: "Ouvistes que foi dito: Não adulterarás." Depois ele fala
sobre o desejo no coração. Isso é importante. Yeshua não está diminuindo o
mandamento. Ele está mostrando que: a transgressão não começa
necessariamente no ato externo; pode começar dentro da pessoa.
Assim,
a santidade da Torá passa do comportamento para a intenção.
13. A
diferença entre "permitido" e "ideal"
Essa
talvez seja uma das chaves para compreender Yeshua e Ki Tetsê.
Muitas
leis da Torá regulamentam situações que não representam necessariamente o
ideal da criação. O melhor exemplo é o divórcio. Yeshua diz: "Moisés,
por causa da dureza do vosso coração, vos permitiu..."
Isso
nos ensina a ler a Torá com maturidade. Uma lei pode:
- estabelecer o ideal;
- limitar o dano;
- regulamentar uma situação existente;
- proteger o vulnerável;
- estabelecer justiça dentro de uma
realidade imperfeita.
Yeshua
conhecia essa diferença.
14.
Yeshua não aparece como alguém desligado da Torá
Há uma
declaração fundamental em Mateus 5:17: "Não penseis que vim abolir a Torá
ou os Profetas." Isso é fundamental para nosso estudo.
Yeshua
não se apresenta como alguém que veio simplesmente dizer: "Tudo que
Moisés ensinou ficou para trás." Ao contrário, ele frequentemente leva
os mandamentos à sua intenção mais profunda.
Por
isso, quando estudamos Ki Tetsê junto com Yeshua, podemos perceber três níveis:
A TORÁ
Estabelece
mandamentos concretos para Israel.
YESHUA
Expõe
o coração e a intenção por trás deles.
O
DISCÍPULO
Precisa
viver esses princípios na realidade em que se encontra.
15. O
que Ki Tetsê revela sobre Yeshua?
Se
colocarmos tudo junto, encontramos um retrato muito interessante.
Yeshua:
valoriza
o casamento e a fidelidade;
protege
os vulneráveis;
defende
a verdade;
condena
a hipocrisia;
valoriza
o trabalhador;
confronta
a exploração religiosa;
ensina
responsabilidade pessoal;
valoriza
a palavra verdadeira;
não
ignora o necessitado;
e
interpreta sua própria morte à luz da Torá.
Portanto,
não precisamos imaginar Yeshua como alguém que abandonou o mundo de
Deuteronômio.
Ele
está dentro desse mundo.
A
GRANDE CONEXÃO
Se eu
tivesse que resumir a relação entre Ki Tetsê e Yeshua em uma frase,
seria:
Ki
Tetsê mostra como a justiça de ADONAI deve organizar a vida do povo; Yeshua
chama o ser humano a levar essa justiça para dentro do coração e vivê-la de
maneira verdadeira.
E isso
ajuda a compreender por que Yeshua dizia coisas tão fortes contra pessoas
aparentemente religiosas. Para ele, não bastava: ter a balança correta; era
necessário ter um coração correto. Não bastava: não cometer
adultério; era necessário tratar o outro com pureza. Não bastava:
conhecer
o mandamento; era necessário praticar justiça.
Não
bastava: fazer votos; era necessário ser uma pessoa cuja
palavra fosse verdadeira. Não bastava: possuir uma religião; era
necessário amar ADONAI e o próximo. E isso nos leva ao centro da própria
Torá: amar ADONAI com todo o coração e amar o próximo como a si mesmo. É
nesse sentido que Yeshua não precisa ser colocado contra Ki Tetsê. Ele pode
ser estudado como um judeu do primeiro século que ensinava, interpretava e
vivia dentro do universo da Torá, enquanto confrontava interpretações e
práticas que, em sua visão, haviam perdido o propósito original do mandamento.
Por:
Familia Bnei Avraham
Sinagoga BeytDaviParashá Ki Tetsê e Yeshua

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